banner viagem dpedro

06.05.1876

5h 21’. Ontem de noite vi deitado a chegada a Pittsburg cerca das 2 da madrugada depois de atravessar em ponte de ferro um largo rio (o Ohio). Tomamos aí um trem especial e seguimos para Oil City. Ontem de noite umas senhoras redatoras de um diário contra a intemperança quiseram ver-me. Vieram a meu vagão. Tendo uma que se lhes agrega perguntando-me notícias de Valparaíso pensando que esta cidade estava no Brasil, e eu respondia que não, a mais esperta levantou-se logo, como que receando mais asneiras e todas as 4 se foram. 

Vê-se do outro lado do rio Allegheny a povoação de Parks-land. 

5h ½. Atravessamos o Allegheny para a margem esquerda por uma ponte de pau coberta, não pequena. 

5h 34’. Crocksburg lugarejo bonito beirando a margem esquerda do rio. Bonita ponte de ferro suspensa à esquerda atravessando o rio. 

6h 12’. Passamos uma bonita povoaçãozinha. O rio corre entre altas colinas cobertas de mato já rarefeito. Adiantei o relógio em 33’. Desde ontem que torno a ver pereiras e pessegueiros todos floridos. Vi há poucos alguns destes junto ao rio, lindíssimos. 

7h 7’. Pequena ilha com árvores e casas no meio do rio, cujas margens são bonitas. Pequeno monumento de mármore cercado de grade ferro à margem esquerda do rio que percorremos. Do outro lado vê-se a encosta das colinas cultivada. 

7h ¼. Atravessamos o rio em ponte coberta que me pareceu de ferro. Tenho visto poços de petróleo à margem oposta do rio e um até com o tubo botando labaredas. Vi-os também nesta margem. 

7h 26’. Muitos poços nesta margem. Vi ontem muita madeira cortada assim como na minha viagem à S. Francisco, mas os Estados Unidos ainda tem ..... 1.460.000.000 acres de florestas. 

7h 25’. Franklin. Povoação considerável na margem oposta com três igrejas cujas torres vi. Ponte ligando as duas margens. Na região oeste dos Alleghanies e norte de Ohio incluindo O. Virginia e Kentucky há 2.359 fornalhas de fábricas das quais só 709 não trabalham. 

7h ½. Povoação pequena na margem oposta com bastantes poços de petróleo. 

7 ¾ Oil-City. 10h Partimos. Dei um passeio de carro pela cidade de 8.000 hab. com bons edifícios e 5 escolas das quais high-school. Encontrei aqui Mr. Cone que vai como cônsul para o país e acompanhou-me. Deu-me um livro Petroles. Visitei uma refinação de petróleo intitulada Imperial Company. Faz ordinariamente 300.000 barris por ano de petróleo refinado. Deu-me amostras dele e de lindíssima parafina. Está abrindo um poço que já tem 400 pés esperando achar petróleo a 620. Encontrou já terreno impregnado de petróleo. Rio abaixo é que há poços mais produtivos; há um de 2.100 pés. Na cidade os poços não jorram, tira-se petróleo a bomba. O petróleo vai para a fábrica que vi por tubos de 5 a 6 milhas de distância. Tem tanques para 100000 barris e uns de 20.000. O petróleo entra por tubos nos barris e as torneiras fecham-se por si mesmas quando os barris estão cheios. São barris de grandeza ordinária. Tem uma escoadeira que vai ao rio para o caso de incêndio nos tanques de petróleo. O último processo de refinação faz-se com ácido sulfúrico e soda cáustica em um grande tanque, onde o ar por meio de bombas agita o líquido. Vamos parar em caminho para ver um poço que dá 40 barris por dia, mas poço onde jorra o petróleo só na distância de 10 léguas. Há 75 anos estava este vale desabitado. 

Também há aqui carvão (betuminoso) e minério de ferro. A maior parte das árvores são white-oaks. Desde antes de Pittsburg que estamos na Pensilvânia. O monumento de mármore comemora a morte de 2 homens pela explosão numa fábrica de nitro-glicerina. 

11h 36’. Hemington. Povoação pequena, mas com algumas casas bonitas da margem esquerda do Alleghany que percorremos. 

12h 6’. Acabamos de ver um poço de bomba que dá 50 barris por dia de petróleo. Descemos a ribanceira até perto do rio nesta margem esquerda. O rio tem quase todo ele sobretudo em Oil-City como manchas de azeite boiando. O verdadeiro distrito dos poços são estas 2 milhas que percorremos. 

12h De Parkers capital do distrito de Oil, onde há muita gente na ribanceira, direita cheia de casas, assim como a colina que a domina, festejam a minha passagem com lenços de perto de uma casa com o pavilhão americano, provavelmente a City-Hall. 

12h 6’. Mina de carvão. Desce ele por uma calha de madeira do alto da colina da margem esquerda até o lugar onde o embarcam por um guindastes. 

12h 32’. Bela e grande ponte de ferro à direita, que atravessa o rio para outro lado onde há fábrica. Deste lado há bastante casas e algumas boas. Muitas tábuas. Leio no diário de Oil-City de hoje o Dayly Dernok que nos primeiros 4 meses deste ano o petróleo exportado da região dele foram de 2.327.982 barris. 

1h 10’. Atravessado o rio em ponte coberta de madeira. Pelo que leio no diário citado creio que os festejos do Exchange no momento acabado de construir. Povoações maiores ou menores de cada lado e diversas minas de carvão que embarca do mesmo modo já mencionado. Passou-se. 

1h Outra vez o rio em ponte de madeira coberta. Vejo um vapor no rio empurrando para cima uma barca chata de forma quase quadrangular, como já vi outras neste mesmo rio, há pouco. Casas com terrenos bem cultivados e pereiras floridas nesta margem do rio. Vi pinheiros bonitos perto da estrada. Bonitos viveiros de plantas perto da margem que percorremos. 

1h ¼. Grande povoação com igreja, fábricas e grande City-Hall, segundo parece. Chama-se Kittanning. Paramos perto de Bismark House. Bela Court-House com prisão. Curiosos barcos formados quase unicamente de tábuas horizontais com um ressalto muito baixo. 

1h 40’ Margens de ambos os lados muito bem cultivadas com casas pequenas. Passou-se o rio em ponte coberta de madeira. À direita fica uma bela ponte de ferro atravessando o rio. Tree-port. Grande povoação nesta margem. 

3h menos 5’ Arnolds, com casas bastantes e bonitas. À margem oposta com muitas casas e muito cultivado. O trem vai a mais de 30 m. por hora. 

2h ¼. Muito bonitas casas e plantações nesta margem. Um Paper-Mill à direita que não parece pequeno. Fundição grande à esquerda. Imensa Work-House na margem oposta. O rio já há muito que não está azeitado. Repetem-se fábricas numa e noutra margem.  

3h 36’. Chegados a Pittsburg. 

6h ¾. De volta ao trem. Igreja Catedral Católica S. Paulo (Bispo) bela de pedra gosto romano. A mais elegante que tenho visto. City-Hall de pedra. Muito suja por dentro mas grande. Fica a perder de vista da de Sacramento. American Iron Works: 3000 trabalhadores. Consome por dia 20 a 30 ton. de ferro. Tem sua mina de ferro de 35% que extrai do outro lado do rio Monongahela. O carvão de pedra vem de mina própria por um caminho de ferro por onde desce até a fábrica por seu próprio peso. A oficina de fazer pregos por máquina é a melhor que conheço de todos os países. Faz a obra de ferro mais procurada somente. Pequeno montinetes a vapor. Emprega para o fogão de preferência a pressão circular com máquina motriz de 3.000 cavalos. O outro motor é de 2.100. Depois fábrica de vidro mas não flint. Ordinária apesar de seus 400 trabalhadores o [ilegível]  com o de Perth e maior altura de onde se domina a cidade e os 2 rios Monongahela e Allegheny vendo-se depois de sua confluência o Ohio — Vista belíssima. 

Passamos primeiramente por uma ponte coberta para o bairro de Birmingham, o das fábricas e do elevador; depois por segunda ponte coberta para ir à Penitenciária que tem perto de 400 presos dos quais só 6 mulheres. Não é tão boa como a do Rio, apesar de ser do mesmo sistema. Auburn. A primeira escolha onde há poucos anos fundaram livraria e escola-capela, é verdade que estas só as admite o sistema que não é reclusão celular completa. Quem me levou aí foi o Travelli com quem muito  simpatizei por seus bons modos e inteligência. Disse-me que tinha estabelecido aqui um jardim Fraebil para crianças, sinto não ter tempo para vê-lo. Informou-me que haveria um na exposição de Filadélfia, onde talvez torne a encontrar o Travelli.

Vi num morro, mas de longe o Soldier’s Monument que pareceu-me artístico com estátuas, etc.

Informaram que havia um bom observatório com um excelente telescópio, e creio que o último planeta dos 140 e tantos descobertos entre Júpiter e Marte o foi aqui há meses. Esta estação é grande e com fachada grande.

Também conheci aqui o chefe de Polícia L. Donnelly,  que esteve 9 anos no Brasil e fala bem português. É muito estimável e vivíssimo. São 2 que, como Wood e Roosevelt em New-York, me deixaram gratas lembranças. 

A cidade é a de Birmingham ou Sheffield dos Estados Unidos. Tem também casas elegantes para o lado da Penitenciária que fica perto de um jardim público bonito. Sinto deixar tão cedo Pittsburg. 

São 7h 10’ e daqui a pouco sigo para Washington aonde espero chegar amanhã às 9 da manhã. Disseram-me que havia o projeto de reunir o Monongahela por meio de um canal ao ponto de Baltimore.

Fizeram um açude no Monong acima de Pittsburg para dar mais fundo ao rio. Os navios sobem por meio de comporta e navegam até 90 m. acima de Pittsburg pelo Monong. 

Partimos às 8h ½ cada um diz sua hora e as tabelas impressas iludem. 

A velocidade foi a princípio de disparada mas agora 9h 20’ vai regularmente. 

Vi há pouco à esquerda uma fileira de fogos creio que de chaminés. 

Nos limites do que se chama Pittsburg há 35 m. de manufaturas de ferro, vidro, aço, cobre, petróleo, madeiras, algodão e brasa. Estas 35 m. são de manufaturas não contíguas que se fossem postas numa só linha cada uma teria 400 pés de frente. São 475. O comércio de carvão de pedra era 74 de 10 milhões de dol. anuais e há 103 minas (collers) nas vizinhanças de Pittsburg.

06 05 1876 1a pagina apontamentos do dia original