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17.05.1876

Deixamos Lousville às 8h Dizem-me que esta cidade é mais bonita que Cincinnati. Casas são edificadas à moda inglesa com jardim na frente. Esqueci-me de dizer que no parque de Cincinnati há jardim zoológico que não pude ver a um bairro, por que passei todo habitado por alemães que mantem seus usos e costumes e conhecido por Over-Rhine.
Ao entrar a Mammoth Cave sente-se uma corrente de ar muito frio e é preciso passar depressa para não se apagarem as lanternas. A temperatura da gruta é de 59º e constante o ar até às proximidades do Green-River é muito leve e agradável. A princípio o caminho é fácil, mas depois deve-se muitas vezes andar quase que de gatinhas e atravessa um escavado na pedra cheio de anfractuosidades e de profundidade de um homem até as axilas; tão estreito que apenas pude insinuar-me por ele. Há salões muito vastos e altos, dos quais o main cave tem 5 milhas de extensão. Num destes salões do lado esquerdo há a chamada igreja que a pedra figura e onde já se pregou, noutro, do lado direito, a denominada capela gótica, noutro o cofre de pedra (coffin) e numa das abóbedas as infiltrações arremedam diversos animais. O urso seguro a um pau e um cavaleiro estão muito semelhantes. Passa-se rente a profundidade de até 100 a 200 pés e numa delas há uma pequena canoa chamada do mar-morto. Em duas os abismos sotapõem-se [sic] a cavidades nas abóbedas, que parecem chaminés. Todas estas escabrosidades são produzidas pela água carregada de carbônico o qual dissolve a rocha de carbonato de cal. Há passagens muito escorregadias, uma delas rente a um dos abismos mal resguardados por varões bambos ligados por outro mais delgado que dá muito pouco apoio.
As margens do Green-River que tem 30 a 40 pés de largo e navega-se em toda a extensão de 500 são tenebrosos bem chamado Styx — mesmo quando se queima uma tigelinha! Apenas se vê sobre suas águas um barco. Nesse lugar tem 5 pés de fundo, mas para a esquerda emprega. Não embarquei na barca de caronte porque o relógio obrigou-me a voltar; já tinha andado 2h ¼ e apenas tinha 4 para este passeio na gruta.
Voltei ao hotel em menos tempo e senti que só me dissessem na volta que poderia ver a Star-Chamber, a que se sobe por uma escada de pau à esquerda, — subi e desci diversas — quando já a tinha passado. Os cristais da abóbeda parecem estrelas quando se acende luz na Chamber. Há abóbedas que apresentam o achamalotado que arremeda nuvens. Enfim é uma gruta grandiosa; estupenda como quase tudo nesta terra, mas também sem a natureza artística dos arrendados da gruta de Adeslberg. Além do Green-River há 5 ½ m. da gruta, e segundo meu guia chamado Mat, mulato muito prognóstico, e atirado a sabichão de história natural. Queria explicar tudo e queimava de vez em quando; a propósito sua tigelinha de pau enxofrado, ou qualquer outro objeto facilmente combustível. Disse-me também que além do Styx não há nenhum inferno, que o caminho é fácil e começam as estalactites e estalagmites. Um livro refere que aí corre um rio Echo-River navegável por quase uma milha com a largura de 150 pés e tão fundo que podem sulcá-lo os maiores vapores do Mississipi.
À saída da gruta o ar externo produzia o efeito das baforadas ardentes em torno de um forno.
Numa das abóbedas há uma escavação formando um novo arco largo da linha a mais artística. Não encontramos nenhum animal, mas sinais de ferradura e carros na parte onde se tirou salitre durante a guerra de 1812. Há na gruta água que pareceu-me boa, posto que misturasse um pouco de conhaque. Contam que alguns físicos quiseram aproveitar o ar da gruta, onde moravam, porém morreram logo 3.
Em 1812 houve um terremoto, mas os que estavam dentro da gruta nada sentiram.
Cerca de 5h ¾. Passei pela povoação de Horse que não é pequena. Antes os campos continuavam bem aproveitados pela cultura, desde 5h ¼ que estou observando. Depois de Horse já passamos diversas estações. Pequenas povoações. Terreno plano e bem cultivado.
7h 40’. Breese a 40 m. de St. Louis. 8h ¼. Trenton. Antes Aviston. Pequenas povoações. De noite atravessamos em Vincenner o Wabash confluente do Ohio pela margem direita. De Cincinnati até St. Louis atravessamos Ohio, Indiana, Kentucky indo a Louisville e Mammoth Cave e Illinois.
8 ¾. Bonito arvoredo à direita. Linda plantação de trigo do mesmo lado.
9h 7’. Dizem que estamos a 10 m. de St. Louis. Não tenho visto povoações consideráveis. Depois de Trenton já passamos Summerfield, Lebanon, O’Fellow, Al Fuseman’s, creio que chegamos a Caseville a 9m. de St. Louis. Bonita campina bem cultivada com colinas ao longe à esquerda. Margeamos pela direita como um canal separado por um caminho de ferro de uma espécie de lagoa.
Depois de uma hora de descanso saí. Exchange. Bela casa. Custou 1.800.00 dol. Vastíssima sala com pinturas no teto por um artista italiano. Fui por elevador a todos os andares e vi a sala da galeria superior que percorre os 4 lados dela. Library Pública de 34.000 vol. só deixando lê-los fora os 3000 assinantes. Tem igualmente exemplares de Belas Artes, que copia quem quer. Nesta casa também se acha a Normal-School, cuja organização só difere da de N. York em também servir de High-School. Não há primary-school na casa, mas em outra como anexo. Belcher Refinery. A melhor que tenho visto. Refina 300.000 libra de açúcar por dia. Disse-me o dono que pouco açúcar recebe do Brasil — só da Bahia e Pernambuco, que é o melhor. Nova casa para a Alfândega — United States Court e Post Office. Constroe-se. Toda de pedra, granito róseo do Missouri e cinzento do Maine e ferro. Edifício magnífico que custará 5 milhões de dol. Passa junto a ele a estrada de ferro que atravessa por um grandioso viaduto sobre o qual passam os carros, e etc. O Mississipi, depois de ter passado por outro viaduto muito menor o Keo Kee (creio que assim se escreve). A estrada de ferro entra na cidade por um túnel sobre o qual existe um hotel. É uma das grandes obras desta terra empreendida por um engenheiro Eads, que também empreendeu tornar navegável para os maiores vapores a barra do Mississipi por meio de 2 imensos molhes encanando a corrente do rio.
Ouvi que já saiu há dias um vapor para a Rússia (disse-me o Smirnoff, que é russo).
Fui à casa dos loucos.
Passei perto do parque Lafayette, e atravessei outro muito grande e bonito. Caíu forte chuva com pedrisco. O carro teve que refugiar-se debaixo de uma árvore por causa dos cavalos que viravam a garupa ao vento.
O Hospital não se pode comparar ao nosso do Rio apesar de ser um belo edifício. Quartos muitos frios de noite no inverno por confissão do próprio médico diretor; emprego de manilhas e outros meios de prender mãos e pés dos furiosos por falta de casa de banhos terapêuticos. É fundação do Condado e serve só para os loucos e idiotas dele. Possue bastante terreno que os loucos cultivam. Há uma sala onde Eles leêm braile a que podem assistir pessoas alheias à casa todos os sábados. Boa idéia. Também há bilhares para Eles jogarem.
Casa de pobres. Também do Condado. É boa, porém as salas mal aquecidas e no andar superior puseram loucos que não cabiam no hospital. Depósito de instrumentos agrícolas feitos em diversas fábricas do oeste. São uns poucos de andares, a que se sobe por elevador. Há instrumentos excelentes e dos mais aperfeiçoados. Trouxe o catálogo. São enviados instrumentos destes a 3.300 milhas Missouri acima.
Voltando a casa tive a visita de Miss Blow, filha do Ministro Americano deste nome com quem sempre me dei muito bem, e Figueiredo filho de Joaquim Procópio, empregado no comércio de St. Louis.
Fui ao Divina Theatre. Pequeno, mas bonito com a forma de sala de quase todos. Representação burlesca, mas com muita graça sobretudo a paródia de uma cena do Hamlet.

17 05 1876 1a pagina de apontamentos do dia