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26.05.1876

Ontem das 7 às 9 fui ver a Esplanada; French Market e a parte criola da cidade. Na Esplanada há alguns jardins bonitos. As ruas são sujas, e tem mau cheiro. Entrei num mercado onde não vi nada de notável.

Às 10 e 10’ estava na catedral católica de S. Luiz. Muita gente, tribuna de gente de cor. Por supor que era missa ordinária já estava ela no meio. Houve confirmação de grande número de meninas e meninos administrada pelo Bispo mexicano de Taumalipas que logo suspeitei pelas feições e cor da tez ser americano. É muito bem apessoado e pregou correntemente em francês. Os padres falavam em língua aos meninos — mas não mostrou talento no sermão. Estudou no colégio americano em Roma, tendo estado 6 anos na Europa. Vai um destes dias para Roma.

Depois fui ao Mecanical e Agricultural College and Museum. Só há a casa construída às 6 anos [sic] com uma pequena livraria, a única pública da cidade de onde não podem sair livros. O edifício é grande e tem 2 grandes salões sobretudo o do andar de cima. Apanhou-me aí uma tremenda trovoada com muita chuva. Tornei ao hotel onde li jornais do Rio até 25 de abril. Saí de novo e vi parte da cidade de 2 às 3. A esta hora combinei com o engenheiro Eads a minha visita às obras das jetties  onde segundo telegrama de hoje já um navio passou com 16 pés e 3 pol.

Depois conversei até o jantar com os Drs. Chopin e Write sobre a febre amarela. Aquele foi há anos presidente da comissão sanitária e este o é atualmente. Há 6 anos que se executa uma lei estabelecendo quarentena de 10 dias para navios de portos infestados. Quando não aparecem casos de febre em passageiros os 10 dias incluem os de viagem. O navio era fumegado com enxofre e agora desinfetado com ácido carbólico usando-se de bomba para que o desinfetante chegue a todas as partes — durante horas antes de desembarcarem os passageiros no lazareto e depois na descarga na cidade. O lazareto acha-se 30 e tantas léguas rio abaixo em lugar isolado. O ano passado modificou-se a lei ficando o tempo de quarentena dependente da Comissão de Saúde Pública. Antes da quarentena houve 13 epidemias e depois desde 1856 só três; uma de navio que não fez caso da quarentena e duas por ter sido a desinfecção mal feita. O ano passado de agosto a 9bro houve 80 e tantos casos na cidade dos quais 30 e tanto fatais. Os 2 Drs. não creêm na quarentena porque nunca será perfeita aqui. O Dr. Chopin disse que tratou aqui do meu genro Augusto. Indicaram-me o Dr. Devron como entendido na desinfecção pelo ácido carbólico.

Às 5 fui até o lago Ponchartrain que é uma espécie de lago. Margeia-se o canal que da cidade vai até lá. Vi diversas casas para banho à margem do lago e restaurante. Pela outra margem seguia o caminho de ferro ou tram-way a vapor. Passei por perto do cemitério de Greenwood. Vi de longe um monumento aos militares mortos na guerra civil. Pareceu-me artístico.

À noite esteve cá o sobrinho de Mrs. de Marigny que hospedou aqui Louis Fillipe em 1800 e ultimamente esteve com o Duque de Penthièvre. Pareceu-me um sulista-nortista querendo que seu filho se eduque no Norte.

Vieram Drs. Devron e Write. Disse-me aquele que todos os anos antes de começar a estação da febre desinfetam-se com ácido carbólico — quando puro leva 49 vezes água — ruas e pátios de casas e logo que consta caso de febre com todo o cuidado é desinfetada tudo de modo que não possa prejudicar o doente. Eles pensam que a epidemia se propaga junto ao solo. Também pulverizam o ácido carbólico para desinfetarem. Observaram que lugar bem desinfetado não é segunda vez atacado pela febre. Só conhecem contudo a neve ou gelo que penetre o solo como só podendo matar o gérmen. Só reaparece aí a febre se houve comunicação com objeto que traga o gérmen de outra parte. Estes Drs. tem grande fé na desinfecção como é praticada. Disseram-me que o asseio das ruas não é da competência da comissão sanitária, que apenas inspecionam e representam. Só tem atribuições quanto a medidas no interior das casas e escoamento de águas do interior delas.

Todos três pareceram-me muito inteligentes, mas Chopin não tem a mesma reflexão que Write e Devron, que também me disse ser amigo de plantas e ter no seu jardim 120 espécies de caladium. Mandaram relatórios — pediram os da nossa comissão e já tomei nota e apressarei sua remessa do Rio e uma brochura sobre o emprego do ácido carbólico.

Ainda conversei com o Bom Retiro depois do chá e à meia-noite fui dormir. Passei melhor a noite, porque logo me envolvi no mosquiteiro. Tomara-me já no Norte!

Hoje das 7 às 9 fui até Carrolton. Encontrei muito bonitas casas de campo com jardins. O jardim público de Carrolton só está melhor tratado na frente. Tem suas flores e misérrima estufa onde sempre alegrou-me a vista de sinphonea elástica.

Creio que esqueci de dizer que na catedral há um fresco sobre o altar-mor representando S. Luis convocando para cruzada. É de um alemão Bumbrecht — penso eu — Coisa medíocre, assim como, ou ainda piores as outras antigas.

Já voltei de minha volta depois do almoço, mas há muito que contar e já são quase 4. Fica para esta noite se for possível.

26 05 1876 1a pagina de apontamentos do dia