06.06.1876

6h 25’. Dizem que o trem parou às 2 ½ em Kingston. Acordei às 4. Depois fui ver o vapor em que parto, o Spartan e passeei pela cidade. Passei pelo belo edifício do Banco todo de pedra. Tem na frente uma bateria de pedra com 9 pés. Há fortificação na margem do rio mais abaixo. Dizem que o Spartan larga entre 6 e 6 ½. A cidade está na confluência do Cataracqui e S. Lourenço no fim do lago Ontário e acima do princípio das Mil-Ilhas. A baía é alongada pelas ilhas Wolfe e Garden. Tem de 13 a 16.000 habitantes. As ilhas que principiam quando acaba o Ontário estendem-se por 40 m. sendo mais de 1.800 ilhas e ilhotas e a largura nalguns lugares de 7 m. Amherst-Island é a mais acidentada.

6h Partimos. O comandante diz que o vapor bota 13 a 14 m. e que estaremos em Montreal às 7h

7h 35’. Já se almoçou e bom almoço e estamos atracados a Gananoque (Canadá) situada na foz do rio deste nome. Tem 5 igrejas e diversas fábricas. Tínhamos passado a ilha do farol e um farolete no meio do rio, e antes o cabo St. Vincent onde se refugiaram os franceses sob a direção do Conde de Real chefe de polícia de Napoleão e neste lugar seria a morada de Napoleão se ele escapasse de Waterloo. Defronte de Gananoque está Clayton onde embarca muita madeira e se tem construído muitos navios. Há muito peixe em suas proximidades.

Passei por um bote e um farolete na ponta da direita do Ivy. À esquerda ponte de madeira que o atravessa.

7h 20’. Chegamos a Lynchburg com bastantes casas e algumas que parecem fábricas, ou oficinas. Desci um pouco. Há um edifício para guarda de locomotivas e vagões e talvez reparos.

7h 36’ Estamos mudando para a bitola estreita.

8h 10’. Atravessou-se o rio e seguimos. Atravessamos o rio — James River em ponte de ferro para a margem direita.

8h 9’. Estamos parados sobre outeiros. No fundo do vale vêem-se diversas casas. Atravessamos um grande corte. Vi num jornal, que achei hoje, creio que de ontem, a notícia de um furto provado e confessado no valor de 30 dol. feito por cadetes da Escola Naval de Anápolis.

9h 7’. Continua o terreno muito acidentado e aproximamo-nos das montanhas. As colinas estão bem cultivadas.

9h 12’ Passamos por [ilegível] . Poucas casas. As montanhas de ambos os lados cobertas de mato não estão longe. Elmingston? Tem suas aspecto interessante dos outeiros formando um tapete esquartejado como de [ilegível]  terra avermelhada e os verdes diferentes das plantações.

9h 33’. Vamos subindo os contrafortes das montanhas docemente. Grande corte. Outra [ilegível]  igual e outro. Como que uma chapada de poucas altas ondulações. O solo não é tão bom, como o de ontem a tarde, para o cultivo.

10h 1’. Passamos por Coperville onde a parada foi de instantes. Bonita vista para a esquerda por onde se alonga a vila. Apertam-se os contrafortes das montanhas, e já se passou um corte. Antes houve 2 estações insignificantes ao que parece, pois não as notei. Corte considerável.

10h 8’. Bonito descampado com colinas mais ou menos altas e a serra muito longe à esquerda. A estrada vai agora por entre colinas apertadas. Corte de grande altura.

10h 20’. Garganta entre colinas mais altas. Corte alto na rocha em parte.

10h ½. Bonito lugar. Charlottesville, o edifício com cúpula que se descobre à esquerda é a Universidade da Virginia. Tem bastantes casas e algumas bonitas. Já lobriguei 2 igrejas.

11h 9’. Vi à direita sobre uma montanha uma casinha que me disseram ser aquela onde trabalhou o célebre Jefferson. A casa de vivenda e a sepultura dele estavam escondidos pelas árvores. O caminho passa depois por um alto viaduto por baixo do qual corre um dos riachos que formam o rio Rivanna cheio de pedras que margeamos pela esquerda.

11h 6’. Lugar bonito em que a vista se alarga e de algumas casas. Já mudou o aspecto e o terreno um tanto árido. Pinheiros sobretudo. Bonita casinha sobre colina relvosa e rodeada de árvores à direita, a vista estende-se para a esquerda até morros que elevam-se ao longe acima das colinas.

11h 23’. Cobham onde a máquina bebe água. Tem algumas casas. Vou acertar o relógio. O do nosso condutor tem 12h 4’. Dizem que a água aqui vinda por uma calha é muito boa. Provei-a, assim é, mas está morna. Vi casas de campo bonitas e a paisagem agrada por causa das colinas e árvores.

12h 10’. Atravessamos bonito mato de pinheiros sobretudo. Chegamos a povoação considerável (Gordonsville) com algumas casas boas.

12h 26’. Seguimos. Passamos o Madison Creek. Daqui a 2 m. estão a casa e sepultura de Madison.

12h 39’. Lugar com casas.

12 ¾. As colinas achatam-se e vejo à direita terra avermelhada e boa para cultura como a de ontem, à tarde. Aparecem casas e igreja sobre uma das colinas à esquerda. Casas de ambos os lados e algumas grandes e bonitas com viçosas hortas.

1h 11’. É Orange, povoação grandezinha de onde seguimos. Já tinha passado Madison. Boa terra avermelhada e bem plantada à esquerda.  Antes via-se bem a alta serra azulada muito ao longe. Lindo descampado todo verde com algumas casas bonitas e uma sobre outeiro dominando um lago pequeno artificial. Chegamos ao Rapidan-River.

1h Rapidan. Bonita igrejinha com torre, toda branquinha. Casa à esquerda rodeada de árvores sobre a colina verde. Do lado direito também é bonito o campo pouco ondulado com montanhas ao longe. A serra azulada à esquerda muito longe é Blue-Ridge.

1h 10’. O terreno vai-se tornando planície sobretudo para o lado direito. Chegamos a Mitchells. Poucas casas. Estamos na quase planície muito bem cultivada e com árvores dispersas. Do lado direito termina em uma linha de colinas com mais ou menos mato e da esquerda a vista esbarra mais baixo ou mais alto no Blue-Ridge.

1h 26’. Passamos por Culpeper. Tem bastantes casas, duas igrejas, e à direita um cemitério bem retirado subindo uma colina, onde se enterraram os mortos na Guerra-Civil. Desci e passeei um pouco.

1h ¾. Partimos. A mesma planície. Casas aqui e acolá, como de herdades.

2h Brandy. Algumas pequenas casas. Grande e bonita plantação à esquerda embora ainda pouco crescida, toda verdejante e ondulante com a aragem.

2h 10’. Atravessamos em curta ponte de ferro o Rappahannock e chegamos à estação deste nome, onde não paramos.

2h 20’. Passamos por Bealeton com poucas casas. Continua a planície mas as árvores tapam a vista sobretudo defronte e da direita. Lindo campo à esquerda todo esmaltado de florzinhas, mas não como os da Califórnia.

2h 35’. Chegamos a Warreton-Junction depois de ter passado Midland e seguimos.

2h ¾. Passamos Catletts.

3h 22’. Acabei de jantar. Durante ele passou-se Manassas que tem suas casas.

3h 23’. Passamos Clifton. Poucas casas. Também durante o jantar passou-se pelo pequeno rio Bull-run onde se feriu a grande batalha que o governo central quase perdeu. Vi à esquerda uma igreja sobre a colina e casas.

3h 37’. Terreno acidentado.

3h 42’. Chegamos a Burke com poucas casas depois de ter passado Fairfax.

4h Terreno mais apertado, porém plano. Colinas de um e outro lado com casas e cobertas de mato.

4h 5’. Alex & Fred Cros’g. Há uma linha que segue à esquerda. Já se tinha passado Springfield. Terreno mais largo, porém ondulado. Casas à esquerda e uma sobre colina desse lado sempre com árvores ao pé como tenho reparado.

4h 10’. Mais casas do lado esquerdo. À direita um  cemitério pequeno e casas.

4h 12’. Chegamos a Alexandria povoação considerável.

4h 20’. Seguimos. Viu-se à esquerda um cavalo puxando uma casa de um lugar para o outro. Atravessa-se um campo grande de relva com algumas casas. Vê-se o Potomac e ao longo dele um canal. Ao longe Washington com o seu Capitólio.

4h 34’. Começamos a passar o Potomac em ponte de ferro e madeira. Agora o rio é raso e os trilhos quase assentam no fundo. Toma a ponta 3ms. passagem. 4h 40’. Paramos um instante.

4 ¾. Chegamos à estação de uma das ilhas que apresentam um aspecto muito pitoresco e estendem-se até Wells Island. A primeira passagem pelo “Long Sault” (rapids) foi cerca de 1840 sob a direção do índio Teronhiahéré creio que da tribo dos Caughnawaga, que dá agora os pilotos para a passagem dos rapids perto de Montreal, segundo me disse o comandante que parece-me amável e dá ares do Dr. José Antônio de Oliveira e Silva. Esqueci-me dizer que vi muitos vapores e outros navios em Kingston.

9h ¾. Muito longe à direita vê-se uma torre do hotel de Alexandria; defronte e perto está a ilha onde o Pullman dos carros tem uma vila. Abaixo de Brackville acabam as Thousand-Island, algumas com seus faroletes e entramos própriamente [própria não existe] agora no rio S. Lourenço com 2m de largo. Daqui a 17’ minutos chegamos a Brockville com mais de 5.000 hab., 7 igrejas e 2 diários. Nas ilhas refugiaram-se os insurgentes canadenses de 1837. Um deles foi salvo pela filha que sabia governar muito bem uma canoa no labirinto de ilhas. Antes das cem Clayton estão as Manitoulin Island. Os índios creem que o Manitou (o Great Spirit) proibiu os seus filhos de procurar ouro e dizem que o lugar onde há ouro nunca foi visitado pelos índios sem as canoas se virarem com a tempestade.

10h 12’. Chegamos a Brockville. Andamos 57 m.

10h 21’. Desatracamos. A cidade é bonita e tem uma City-Town [sic] de pedra de belo aspecto. A cidade é assim chamada em honra do general Brock morto como um em Queenston onde está seu monumento em 1812. Esqueci-me de dizer que numa praça de Toronto em Queen’s Garden há uma bonita fonte de mármore com peças tomadas aos americanos; desforra das do monumento de Jackson no Lafayette-Park em Washington. Ogdensburg está do lado da América oposta a Prescott no Canadá. Aqui o rio tem 1 m. de largo.

11 ¼. Chegamos a Prescott no Canadá; do outro lado está Odgensburg onde missionou em 1748 l’abbé François Piquet chamado depois o Apóstolo dos Iroquois. Prescott tem 3000 hab. 4 igrejas e 2 diários. O rio tem 1 m. de largura. Ogendsb. está na confluência. Oswegatchie. Suas ruas são arborizadas e por isso chama-se Maple-City. 10 milhões de bashels de cereais de Oeste passam por aí anualmente, para Nova Inglaterra. Há também grandes depósitos de farinha de trigo e madeira. Mas de 12.000 hab.

2h 4’. Passou-se o Long-Sault. Belo espetáculo. Rio encarpelado. Às vezes só há 1 pé de água debaixo da quilha do vapor que demanda 8. À tarde tem estado lindíssima. Pouco depois de 1 ½ houve uma corredeira pequena, embora maior que outras antes. A de Long-Sault é a maior. Se recebem índios em Lachine como pilotos è provavelmente para honrar a memória daquele cujo nome já escrevi. O vapor inclina-se agora bastante nas voltas, como sucedeu nas corredeiras últimas, sobretudo a penúltima. O rio é bastante povoado em ambas as margens e cultivado, sendo até mais baixo a margem do Canadá, melhor para a cultura. Há bastantes canais marginais longos e com muitas comportas onde há pequenos vapores. Os vapores não podem subir corredeiras como a última onde a velocidade é de 20 m. por hora.

3h 5’. As margens continuam do mesmo modo à exceção das altas montanhas que se descobrem muito ao longe do lado direito. Os faroletes repetem-se. Vi patos antes de passar o Long-Sault. Não há alligators no rio segundo me disse o comandante. Os rapides do Long-Sault tem 9 m. com a queda de mais de 48 pés, e são divididas por ilhas em S. Channel por onde passamos e N. Chan. chamadas primte. Lost Channel porque julgavam que conduzia a perda infalível. Os navios sobem pelo Cornwall Canal (lado do Canadá) de 11 m. de compr. Cornwall tem 2.500 hab. e 5 igrejas. Há muitas fábricas de algodão. 3 linhas de vapor tocam nesse porto. Abaixo de St. Regis o rio forma o lago St. Francis de 5 ½ m. de largo e 25 m. de comp. em cuja saída está a aldeia Coteau du Lac, na extremidade de 11 m. de rapids, em 83 pés de queda chamados Cedar-rapids e Cascades. Depois de Cornwall Canal o curso do S. Lourenço está todo dentro do domínio inglês. Há pouco ouvi que os rapids de Lachine são mais perigosos e assim parece pela descrição. Do lago St. Louis vê-se a montanha de Montreal a quase 30 m. Em Lachine a corrente é tão rápida que para evitá-la cortou-se um canal nos rapids, obre estupenda, diz um dos guias impressos. Do lado oposto a Lachine está a aldeia dos Caughnawaga que quer dizer “Índios rezando”. Depois de Lachine passou-se a antiga aldeia de Laprairie na costa americana; lugar célebre por ter-se aí constituído o primeiro de ferro da América do Norte britânica daí até St. Johns em 1836. O trem foi primeiramente puxado por cavalos.

Os canais à borda do S. Lourenço são 41 com comportas e 234 ½ pés de nível e de Prescott vai-se de estrada de ferro a Otawa capital do Dominion por acabar com mais de 27.000 habitantes.

4h 40’. Atracamos um instante em Cote du Lac que tem bastantes e cuja torre resplandecia desde longe com os raios solares. Defronte fica Beauharnais, mas ainda não vi.

O comandante tem me agradado. É inglês. Também procura-me o escocês de Glasgow de 65 anos homem vivo e jovial, Mr. Alworth inglês que parece-me inteligente e anda com uma filha e outros 2, um dos quais é o perfil e expressão de fisionomia de Gobineau, que anda com uma senhora que se parece com ele ambos inteligentes. Outro também me tem falado e a todos tenho falado das maravilhas de minha terra e progressos que realmente tem feito e fará. Eles espantam-se às vezes do que eu lhes digo, mas parecem-me simpatizar com o Brasil.

Agora que passou o lago St. Francis o rio estreita-se.

Os passageiros são pelo menos 150 e o vapor é grande mas sem nada de notável.

5h Passamos os Cedar-rapids. Não são como o Long-Sault porém mais consideráveis do que os outros. O velho escocês chama-se Rbt. Robertson de Port Robinson.

Ontário. As montanhas muito longe de que falei, são as Adirondack-Mountais. Ainda não pude descobrir no horizonte a montanha de Montreal.

5h 25’. Passamos as Cascade: rapids menos iguais aos de Long-Sault; a água fervia em caixões à direita.

6 ¾. Passamos por outros rapids mas não tão ferventes como os anteriores chamados (Behaconie)? Descobre-se bem porém muito ao longe a montanha de Montreal e adiante o farol-barco numa ponte que se dobra para chegar à cidade.

Disseram-me que Albert-Brigde está ainda em projeto etc. Depois dos rapids entramos no St. Louis Lake. Não podem tardar os pilotos índios para atravessarmos os rapids de Lachine. Dois pequenos farois-barcos.

7h 6’. Passados os rapids de Lachine. Nesta povoação à direita recebemos o piloto índio (chamado Batista) que nada tem de característico. Houve 4 balanços maiores de estibordo e bombordo, e outros em sentido contrário. Passamos perto de um rochedo quase coberto de água à esquerda. Estes rapids são mais perigosos, mas não tão pitorescos e de aparência amedrontadora como os de Long-Sault. Aproximamo-nos de Montreal de que já vi bastantes casas e uma igreja defronte de Lachine.

A cidade dominada pela montanha atrás da qual se punha o sol que também corava de rosa a imensa ponte produzia uma vista belíssima. Perto de 8 entrou o vapor para uma pequena doca perto de outra com comporta depois de se terem passado os passageiros, para Quebec do Spartan para o Montreal também grande.

Receberam-me no cais com hurrahs.

O compartimento da Victoria Bridge é de 9.194 ou quase 2 milhões inglêsas. Descansa sobre 24 pegões e duas cabeças de sólido trabalho de pedreiro. O vão central tem 330 pés de comprido. O tudo por cujo interior passa o caminho de ferro tem 22 pés de altura e 16 de largo. O custo foi de 6 milhões e 300.000 dol. Tem 250.000 toneladas de pedra e 8.000 de ferro. Chegamos ao Hotel St. Lawrence Hall depois das 8 ½. Vesti-me e fui ao teatro — Academy of Music — Bonita sala e representaram bem a peça cujo programa trouxe. Tocaram o hino inglês quando eu cheguei e retirei-me e aplaudiram quando eu passava.

Comi um pouco e vou dormir que é mais de meia noite. A água de S. Lourenço é muito clara.

 

06 06 1876 pagina dos apontamentos do dia