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07.06.2015

5 ½ da manhã. Ontem antes de me deitar ainda vi o lago junto ao qual passamos e ao longe as White Mountains que me pareceram bastantes altas. Deixamos há poucos minutos Concord (capital de New Hampshire) e margeamos o Merrimack.

Esteve há pouco comigo o barítono Guelmete. Foi cantor na Capela do Rio e mostrou-me um atestado de Francisco Manoel da Silva de 1853. Lembro-me dele no Rio.

Paisagem de colinas relvosas com cultivo e casas de vez em quando. Bonita cocheira do rio perto de uma ponte. Seguimos sempre a margem direita do Merrimack.

5 ¾, passamos Hooksett e logo depois atravessamos o rio em ponte de madeira coberta não pequena.

6h 4’. Cachoeira do rio e uma ponte. Chegamos a uma povoação considerável, com longas ruas arborisadas. É Manchester cidade manufatureira e a mais popular de N. Hampshire com 23.509 hab. Elm-Street sua principal rua tem 100 pés de largo e mais de 1 m. de comp. Estação grande. Seguimos. 6h 19’. Goff’s Falls. Atravessamos o rio em ponte coberta. Passamos

6h 34’ outra vez o rio em ponte coberta.

7h 6’. Outra vez. Chegamos a Nashua.

7h 9’. O Merrimack alargou, contudo apresenta pequenas corredeiras.

7 ½. Há tempo que vejo no rio uma grande linha de madeiras flutuantes ligadas em continuação, dizem que para evitar que as que boiam no rio deixem de seguir o mesmo caminho.

Chegamos a Lowell.

8h 10’. Já estou no Hotel Merrimack House para onde fui a pé por ser muito perto da estação. A entrada da cidade é muito por causa da muita água que julgo ser de Pawtucket-Canal que não tendo dado lucro para a navegação, estendendo-se desde as cachoeiras até o Concord-River abaixo da cidade, foi aproveitado para uma fábrica. Começou em 1846 um canal desde a saída do lago Winnipesaukee para obviar as baixas do Merrimack River.

Em 1871 havia em Lowell 69 fábricas com 9404 mulheres e 5413 homens. 570.586 fusos e 13.466 teares. Tem 42.000 habitantes. Frederika Brener fala “Glorious vieux from Drewcroft’s Hall on a cold winter evening of the manufactories of Lowell lying in a half-circle, gliterring with a thousand lights like a magic castle on a snow-covered earth”.

A estátua do monumento que se vê na praça ao pé do hotel é do célebre Bauch Esqueci-me de dizer que vi no Museu de Montreal a medalha que obteve a coleção na Exposição Universal de Paris. Os serolitos foram com outros objetos para a Exposição de Filadélfia.

Vi aí diversos exemplares de rocha do Eozoon assim como pedras com impressões das patas do batráquio antediluviano Sauropus Unguifer.

É preciso formar no Rio uma coleção semelhante das riquezas do Brasil e em cada capital de Província outras das respectivas.

Vi enxofre em pó, que se condensou sobre a rocha de cujas fendas saía o gás ácido sulfuroso. Que belos mármores e serpentina como a do pedestal sobre que está o lindo bustozinho de Bache! Tudo está perfeitamente classificado e senti não parar por aí todo o dia. A casa muito bonita embora as salas não sejam grandes tem três andares.

Está caindo boa pancada de chuva. Adiantei ¼ meu relógio pelo do hotel.

Disseram-me que foi o Dr. Ayer da salsaparrilha quem doou à cidade o monumento ereto à memória de Ladde Whittney do 6. reg. Milícia de Massachutts [sic] morto no ataque daquela comp. pelos (roughs) turbulentos de Baltimore em 19 de abril de 1861.

5h 10’. A cidade é bem situada. Ruas arborizadas de Maple-Tree e quase todas bem calçadas.

O passeio por cima de uma colina e belo Belvedere onde mora o general Butter em linda casa de campo é bonito. Fica perto a entrada do Northern Canal que por meio de um açude conduz água de cima dos rapids do Merrimack. Também vi o canal Pawtucket. Visitei as fábricas. Merrimack — a maior — de tecido de algodão pintado — calicot — que faz por ano chita que medida em sua extensão iguala 12 m. Tem mais de 2000 trabalhadores. Pagam por yard e cada trabalhador ganha até 36 dol. por mês; o Carpet-Mill. A casa dos teares em número considerável ocupa um acre de superfície. A Usa cores de 600 nuanças — só de verde 60 — mais de 2000 trabalhadores; muito importantes; não menor que a de Handerson de Durham; a Machine-shop com igual número de trabalhadores para todas as máquinas relativas à manufatura de algodão fabricando 4.000 teares por ano. A Lawrence-Mill de meias própriamente dita assim como camisa de meia, com máquinas engenhosíssimas.

Casa do Dr. Ayer. Corri-a toda. Publica disse-me o que lá estava Cooks ou Crooks 10 milhões de almanacks por ano imprimindo 80.000 por dia. Vi as máquinas de dobrar as folhas. Tem 150 trabalhadores dos quais 100 mulheres. Reinava muita atividade. Quase todos tem turbinas de 250 cavalos cada uma e 300, e Machine-Shop também uma máquina de vapor de 1000 cavalos. Há um folheto que dá informações sobre as fábricas de Lowell. Levo-o. O salário é por empreitada nas fábricas de tecidos e regula em todas de 20 a 33 e 36 dol. por mês.

6 ¾. Partimos. No passeio de antes do jantar vi por fora dois bons edifícios. High-School e Primary-School — e uma bela e grande igreja católica de pedra em construção. A 1ª fábrica que vi foi de panos com 2000 e tantos trabalhadores. Faz panos de todas as qualidades; excelentes chalés de todas as cores e cobertores. É tão boa, segundo me pareceu, que uma que visitei em Aix-la-Chapelle.

Esta tarde dei um passeio do outro lado da cidade de Lowell, vendo a boca do Pawtucket-Canal. Bela avenida de maple-trees com lindas casas de campo quase todas como as desta manhã de madeira: uma se estava construindo perto da parte mais povoada. O passeio de subida esta manhã foi, parece, o de que fala Frederika Brener.

7h 4’. Já passamos por duas estações e ao chegar à última vi à direita um grande edifício de feio aspecto que disseram ser a casa de caridade do condado.

7h 13’. Nada de notável no aspecto do terreno, passamos um corte baixo e curto. Terreno alagadiço à esquerda colinas à direita junto à estrada. Povoação por detrás das árvores, à esquerda, casa grande e igreja. O sol vai-se pondo rubro do lado que deixamos. O céu desta banda está nublado. Depois do jantar deu uma boa pancada mas o tempo ficou bom para o passeio perto das 6. Esqueci-me dizer que o governo do Canadá dá 400 piastras disse a irmã de caridade; mas julgo que são dol. por ano ao colégio dos cegos.

7 ½. Outro corte como o que já mencionei. Água estagnada à esquerda.

7h 34. Uma junção. Atravessamos mato.

7h 40’. Água é que vou vendo, à esquerda terreno bem cultivado. Passaram-se algumas casas desse lado.

7h 43’. À direita povoação Peabody. Também há casas à esquerda. Não é pequena. O célebre Peabody gostou deste sítio. 2 igrejas. Tem um largo bonito e estação feita com gosto. Bonito edifício do Peaboy-Institute. Muitas peles cosidas penduradas ao sair da povoação. Aqui existe ainda a casa onde nasceu. No Instituto há livraria e coleções dignas de visita e o retrato da rainha Vitória dado a Peabody.

8h 6. Chegamos a Salem. Num cemitério está enterrado Peabody. É a cidade-mãe da colônia do Massachussets. 8h Atravessamos um túnel. Estamos em Salem, onde ainda se mostra a Old Witch House em que alguns feiticeiros foram julgados.

8h 11’. Chegamos a um lugar bastante povoado. Antes só casas de campo que me pareceram bonitas. É Lynn de 20 e tantos mil como Salem. Possue um dos mais belos City Hall de Nova Inglaterra.

8h 12’ se vê à esquerda a baía de Boston e de outro lado as luzes de Mahant a 12 m. por água de Boston, que parecem as de Niterói, e perto da qual julgo ter lido que Longfellow arrendara ou alugara uma casa. Não percebi quando passamos o rio Lynn. Já se vêem as luzes de Boston. São 8 ½ e chegamos a Chelsea.

9h 40’. Das 6 às 9 Market de Bon-secours. Grande edifício de pedra. No terceiro andar está a Câmara Municipal. Tem zimbório e cúpula. Não vi objetos curiosos. Quase todos os vendilhões falam francês. Havia peixes de rio — sobretudo um muito grande estrugeon e de mar, de Portland. Igreja de Notre-Dame do Bon-Secours muito perto. É de 2 séculos fundada pela Bonne-Soeur Bourgeois, que morreu em 1700. É curiosa pela sua forma antiga. St. Patrick. dos irlandeses. É bela externamente e no interior de colunas parece-se com a de St. Peter de Pittsburg, que muito me agradou. Christ Church episcopal. De estilo gótico e com uma flecha de grande estatura. É muito bela externamente; internamente é bonita; mas não gosto dos arcos de madeira no teto de pedra. Retrato do Deão Bethune que morreu em 1872 de 91 anos e monumento no terreno fora da igreja de bispo Fulford, cujo busto se acha na sacristia perto do retrato do Deão durante 24 e pároco durante 40 e tantos anos.

Instituto de surdos-mudos. 50 meninas. Uma respondeu bem vocalmente a perguntas da diretora de rotundas dimensões pertencente a uma congregação que se diz de irmãs de caridade. Tem 10 mestres nesta ordem. O edifício é grande e cercado com bastante terreno para plantarem. O governo do Canadá só concedeu 5.000 dol. por ano. A superiora queixou-se de pouco dinheiro, tendo reparos e obras que fazer como eu observei.

Catedral católica de Notre-Dame. Grande igreja. O interior pintado e dourado à moda britânica. O teto é baixo demais. O cura chama-se Martineau e queria por força que eu visse os ornamentos da igreja. A cidade tem belas casas e aqui perto um belo correio. Antes de voltar ao hotel entrei numa loja de livreiro. Não tenho achado em nenhuma parte as obras de Siman sobre os Estados Unidos. Há muita pedra ao pé e por isso as casas são de pedra, e muitas de cantaria e quase todas as ruas calçadas de paralelepípedos. A cidade do lado do rio tem bons cais de pedra.

2h 20. Fui ao Museu mineralógico e geológico. Belo estabelecimento. Tudo muito bem classificado. Também há aí um gabinete para análises de minerais. O químico deu-me um lindo cristal de silicato de alumínio e ferro (garnet) (creio que é que chamamos granada da British Columbia). Depois ainda falarei deste Museu.

Casa de ensinar a cegos dirigida por irmãs de caridade. São 13. 50 cegas e cegos (Estes 13). Aceiada [sic]. Sistema de Braille. Os cegos aprendem a fazer vassouras e a afinar pianos. Primeiras letras, geografia, e história; a tocar todos os instrumentos e as meninas costura, bordados, etc. eis o ensino.

Mc Gill-College. É uma universidade fundada por este homem, e socorrida grandemente pelo banqueiro Malsson (há um banco na cidade com este nome). Deram-me uma brochura sobre este estabelecimento. A escola de medicina anexa; muitos porém estão em férias desde 3 de maio até 13 de setembro e nada tinha que ver.

Passeio ao morro. Belíssima vista da cidade. Ao longe montanhas de Belisle e outras. Voltei por junto do reservatório das águas, que as recebeu por canal vindo do rio de ponto superior aos rapids de Lachine (creio eu) e depois são levados por bomba às alturas precisas. Vi de cima do morro o Hotel Dieu, que é um grande edifício para doentes e órfãos. Agora vou para estação de onde parto para Lowell.

A livraria de Mac Gill-College é bonita e tem 12 mil volumes, alguns curiosos. No Museu vi um lindo bustozinho de Bache, e outro busto de Sir William Logan, o célebre geólogo, de que um amigo seu deu-me uma biografia.

 

07 06 1876 pagina dos apontamentos do dia