banner viagem dpedro

10.06.1876

Antes do almoço fui ver o novo edifício, que é bonito e num belo lado da cidade, destinado a museu de belas artes. Já aí há quadros — e alguns bons — e gessos, de que verei se obtenho na Itália os que faltam à Academia de Belas Artes do Rio. É bom princípio do South Kensington Museum.

Às 8 ½  fui a Cambridge. Chega-se por uma rua de cottages à casa de Agassiz.

Almocei aí com Longfellow que logo conheci pela fotografia; Lowell  fundador do Instituto desse nome; Pourtales das coraleiras — Laman do Museu Agassiz; Lawrence, Dr. Holmes e o Presidente de Harvard-College além dos Agassiz. Lowell é um velho todo vivacidade e muito me agradou. De Longfellow não é preciso falar. Vi em casa de Agassiz um retrato gravado de Humbold quando chegou da América. Tem ar carregado, mas o Dr. Holmes disse com espírito que era de quem deslembrava ainda o sol da Nova Espanha.

Retratos de Agassiz moço e um belíssimo busto dele pelo filho do escultor Powell, que disse Al. Agassiz ter muito talento. Conversou-se bastante.

Às 11h saí. Belo edifício para os exames — faziam-no de grego de classe atrasada — todos os exames são só por escrito — e festas de Harvard-College. Gabinetes de física — excelente com as máquinas mais modernas e muito hábil professor — e de química inorgânica e orgânica muito bem provido de mesas para ensaios tendo até fornecimento de hidrogênio sulfuroso retido. O professor de química inorgânica disse-me vendo eu um aparelho para as experiências de luz e calóricos como o motor no vácuo feitas por Crooks disse-me que este se tinha enganado e que ele encontrou dentro de cada parcela um corpo de peso de 1/10 de centigrama que pela dilatação produzia a rotação do corpúsculo suspenso.

O de história natural é bom e pode-se estudar cada classe em uma sala separada.

O horto botânico está muito bem classificado e tem plantas muito bem escolhidas como a estufa. O herbário é rico. Tem salas para trabalhos microscópicos. O professor é conhecido Gray e o diretor do jardim pareceu-me muito inteligente.

O observatório é muito bom. O círculo meridiano é perfeito em todo o sentido. Há aparelho fotográfico mas não heliostático para copiar a face do sol. Vi magníficas fotografias do cometa Donati e outras etc. É estabelecimento digno de ver-se depois de Washington. O lugar para a ginástica de 1200 rapazes é acanhado; assim o reconheceu o Presidente, que é muito inteligente assim como a pouca duração do curso de Medicina que está em Boston.

Passei pelas casas das escolas de engenharia e dos teólogos. Visitei um alojamento de estudantes — 2 a 2 que me agradou; vi a livraria de 200.000 volumes, e com bustos dos quais me agradaram sobre tudo pela expressão e boa obra artística os de Channing e de Emerson de quem falarei depois.

Fui a um dos clubes de estudantes com sua biblioteca. Aí me deram champagne. Entrei na capela que é boa. Finalmente, visitei o Museu Agassiz riquíssimo de objetos em vasto edifício — tendo-se já gasto um milhão de dólares nesse estabelecimento e achando-se a parte entomológica de Hagen muito bem arranjada por ele – cada espécie de inseto em sua gaveta mostrando todas as fases de sua vida e até parasitas, que os atacam. Há uma sala que é destinada a uma espécie de curso resumido de história natural pela escolha dos objetos.

Enganei-me quando falei das salas separadas para as classes, tratando de Harvard-College. É neste museu que estão e serve também para a Harvard-College creio eu. O ensino é instrumento livre no College somente no último ano dos cursos e no Museu e Agassiz sem limitação. Agassiz, Pourtales e Liman são os três homens principais do Museu. Agassiz tem em Newport casa de verão com gabinete para trabalhos microscópicos. Hei de visitá-lo.

Finalmente fui ao cemitério de Mount-Auburn que é muito pitoresco pelo acidentado terreno plantado de grama e de árvores. Procurei o monumento do célebre Channing. É modesto mas bonito e de um maple-tree que cresce ao pé tirei algumas folhas assim como copiei o epitáfio.

Visitei a sepultura de Agassiz. Colocaram sobre o lugar um bloco do glacier de Aar que ele tanto estudou. Sobre o bloco está o epitáfio. Colhi flores de perto dele, de que mandei uma a Mrs. Agassiz.

Jantei com Longfellow. Casa mais bonita externa e internamente que de Agassiz. Belos quadros, estátuas e bustos, sobretudo de uma italiana, cujo nome pareceu não querer dizer-me. Tem um retrato a óleo pequeno de Litz [sic] trajando de padre e com uma tocha na mão. Que fisionomia apaixonada. Longfellow ouviu-o e era muito dele. Não quis dizer quem preferiu entre Litz e Thalberg. A conversa na mesa foi muito espirituosa falando sobretudo Dr. Holmes professor de anatomia da Medical-School e poeta de merecimento. Fez-nos muito rir com o que ele disse do olhar de porco de Charles Dickens, de quem é aliás entusiasta, que ouvira aqui em conferências. Ralph Emerson era um dos convidados. Falou pouco, porém sua fisionomia e seu olhar falavam mais que todos. Longfellow estava também docemente espirituoso e gostei das 3 filhas que também jantaram, não estando Mme. Agassiz, nem Lowell, Liman, Lawrence presidente do Harvard-College, Elliot e Pourtalés. Mas julgo-os todos amigos.

Longfellow deu-me dois livros de sua livraria e depois do jantar passeamos bastante na varanda do lado da casa fazendo-me ele bastantes perguntas sobre o Brasil. Deixei esse filho de um dos maiores contribuintes para o Museu Agassiz excelente amigo em todo o sentido perto das 8 da tarde.

À noite fui ao Boston-Theatre para a Imperatriz ver a família Vokes, de que já falei em Washington.

 

10.06.1876 Página