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15.06.1876

5 ¼ da manhã. Ontem depois do Atheneum fui ao City Hall ver o Mayor e pedir-lhe uma coleção do que a City tivesse publicado a respeito de instrução pública.

O nome do dono do belo jardim defronte ao Wellesley College é Humewell.

Depois do jantar fui ontem despedir-me de Mme. Agassiz e de Longfellow. Entre 3 e 4 tivera a visita do professor Slade e da mulher dando-me aquela uma bela obra com estampas sobre Harvard College e fui à casa de John T. Sargent ver Whittier cuja fisionomia, embora algum tanto severa, muito me agradou. Falei-lhe de Barbara Freach e do hino do Centennial e ele agradeceu-me a tradução de The cry of a Lost Soul. Pouco discorreu sobre literatura.

O célebre orador Phillipps e outros chamaram logo, a propósito da doença de Blaine, a conversa para o terreno da eleição presidencial.

Ofereceram sorvete de creme e café com leite, sendo Mrs. Sargent muito amável com todos e retirei-me abraçando eu Whittier que se mostrou muito comovido.

Vou a caminho de Albany. O terreno é de colinas e vêem-se plantações.

5 ½ vejo à esquerda o Hudson River bordado de colinas deste e do lado oposto dele. Vão aparecendo casas e até vejo o grande vapor atracado.

5h 35’. Chegamos a Albany. Vi 10 vapores no Hudson, que atravessamos em bela ponte de ferro. Depois de chegar à estação passeamos de carro duas horas. Belo novo Capitólio que se construiu todo de cantaria e tijolo, internamente. Belas catedrais episcopal – vi no fundo grande janela de vidros pintados muito bonitos quando pude julgar de fora – e católica.

Penitenciária. Pelo que vi, passando, parece fazer-se ainda – porque está aumentando com os defeitos da de Boston.

Bonito jardim público, onde passeei um pouco a pé com lago e barcos – um era remado por duas senhoras. Belo Hotel. A cidade é sobre colinas.

Partida às 8h 10. O caminho é lindo.

8 ½ . Que bela cascata — como a grande da Tijuca pela massa de água — e à esquerda! Canal Erie tão cheio de barcos que parecem uma só linha. As ruas de Albany são quase todas plantadas de árvores. Calçadas más de pedras arredondadas.

9h 3’. Chegamos a uma estação. Estamos em Mechanic-ville.

O New York Herald de hoje já publica o que fiz em Boston ontem e só foi sabido depois das 8h Já passamos Troy. Foi uma grande povoação que eu vi pouco depois de Albany e tem 50.000 — Albany 70.000 aqui também passei pela casa do Governador, não muito grande mas bonita e quase coberta de folhagem das trepadeiras. É cidade manufatureira (ferro, aço Bessemer, algodão, lã, etc.). Vejo agora no guia  que a cascata chama-se Cohoes-Falls no Mohawk que aflue no Hudson.

9h 40’. Muito bonito caminho quase todo com lindas casas e jardins — também vi plantações. Chegamos a Ballston com bastantes casas e algumas bonitas. Tem diversas boas fontes de águas minerais A melhor é Lithia.

9h ¾ Atravessamos uma ponte. Outra. Lugar de bastantes casas com árvores e cortado de águas.

9h 49’. A vista alonga-se à direita por cima de lindos campos e colinas com árvores e plantações. Para a esquerda também a vista é bonita. Já se vêem casinhas com bandeira americana e letreiro Geyser-Spring etc.

10h 5’ Descampado bonito com árvores e casas espalhadas.

10h Chegamos a Saratoga.

10 ¼ da noite. Estamos no Grand Union, que parece não ser tão grande como o outro desse nome, que ardeu. Todavia é um dos maiores; mais comprido, porém não tão alto nem tão largo como Palace Hotel de S. Francisco; contudo tem seis varandas superiores umas às outras que deitam para o saguão pequeno comparativamente ao do Palace Hotel. A rua do Hotel Broadway é bonita. O lugar em geral não é bonito.

Fui à igreja católica pequena, mas que não é feia no interior de gosto romano. Dei depois um giro vendo primeiramente Geyser-Spring assim chamado porque repuxa dentro de um tanque circular onde também há um globo de vidro onde a água entrando e saindo por uma pequena abertura produz efeito curioso. Acharam esta fonte abrindo uma artesiana até 183 pés. A camada a 9 pés do nível atual é do carbonífero. O jorro vem de água que passa por fendas de terreno Fleinty de bird-eyes. É alcalina e ligeiramente férrea; fria. Vi outras que não descrevo porque são muito conhecidas pelos guias; mas ainda que a água do Excelsior é muito fresca e gasosa, sabendo-se muito bem, apesar de ligeiramente férrea e sulfurosa. Perto da Geyser-Spring, no jardim e correndo para as águas que formam um bonito lençol de água por cima de um açude acima do qual está um lago, há uma fonte fria porém muito sulfurosa e alcalina.

Junto à Excelsior há um bosque onde encontrei mais de pic-nics [sic] e muitos passeantes. Voltando daí vi ao lado esquerdo um edifício vistoso onde está a bomba por vapor que distribue a água de beber pela vila. A água é boa. Perto do hotel está o Congress-Spring que estão arranjando melhor, assim como o jardim que é bonito e tem veados num cercado pequeno. As árvores do jardim são olmos, que abundam neste lugar. O guia de Osgood dá muitas informações das fontes, etc. Vi o modo porque se enchem em Excelsior os barris e levo explicação assim como mapa da povoação de Saratoga, que não é grande; tem 8.000 residentes – e confesso que neste lugar só reparei nos hotéis que são notáveis.

Depois do jantar fui ao lago de Saratoga à distância de 6 milhas. Há restaurantes; dois tanques ao pé, tendo um trutas e daí goza-se de belíssima vista, havendo diversos caminhos na falda relvosa da colina para descer até à margem do lago. Aí avança uma ponte de madeira que dá embarque para um vapor, o Silvermoon que navega o lago agora às 11 e às 4.

Perto do embarque há casa de jogar a bola. Vendo outro vapor perto do cottage de Frank Leslie, que é editor de diversos jornais – alguns ilustrados em N. York – Fui até lá e ele, de muito bom grado, fez o vapor andar e vim no vaporzinho com ele e a mulher – meus conhecidos do soirée em Filadélfia, de Mr. Child, até onde estava minha e os companheiros de viagem [sic], menos Macedo e O’Kelly que tinham ido comigo até o vapor de Leslie, e deu-se um passeio até o fim do lago que os índios chamavam Kayaderoga.

Saratoga significa em língua iroquesa place of herrings, nome aplicado ao que se chama agora Fisch-Creek. Tem 9 m. de comp. e muito perto de 3 de largo. Além de Snake-Hill estando entre mato para cá dessa ponte a casa que serve aos estudantes da Universidade de Cornwell, onde há bastantes brasileiros, para as regatas em julho e agosto – aparece o edifício que não é pequeno dos Sulphur-Springs junto do qual repuxava uma fonte. O lago é muito bonito, e desse lado há diversas vilas. Vi duas marrecas voando por sobre o lago.

A casa dos Leslie – sendo a mulher muito espirituosa, falando castelhano, italiano e francês – é de N. Orleáns, da família Foline. – Além da língua da terra e tendo aprendido latim, veio conosco o Coronel Willoghby, sogro de Pierrepont, nomeado Ministro para Paris. Tem 86 anos, mas espírito juvenil cheio de vivacidade. Também é vigoroso e manobrou o leme revezando com Leslie que me agradou, e a quem prometi um exemplar da última Breve-notícia, em inglês. A senhora muito me perguntou a meu respeito e admirou-se de que a tradução da Breve-Notícia fosse em tantas línguas inglês, francês e alemão. Foi um bom passeio. O caminho até o lago tem lugares que não são feios e bonitas plantações e arado. Passa-se pelo campo das corridas de cavalo. Chegamos ainda com restos de crepúsculo porém minutos depois das 9.

Vi esta manhã um acampamento ou antes casas de madeira que são ocupadas em tempo próprio por índios do Canadá. Frank Leslie falou-me dele como gente muito suspeita. Do lago vêem-se ao longe as Green-Mountais que parecem-me ligar-se aos Adironteck que vi ao longe descendo o S. Lourenço.

Sigo amanhã às 6 ½ para Pougkeepsie. Se alguma coisa me lembrar acrescentrarei de manhã.

O que escrevo são rápidos apontamentos e portanto desconexos. Levo fotografias.

 

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