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16.06.1876

6h 40’. Acordei às 5. Estou no vagão à espera da partida. Ontem fez muito calor. Partimos. O Dr. Fontes foi ontem ver a casa de banhos do Dr. Strong. Achou-a boa. Tem banhos russos, turcos, elétricos e aplica o vácuo por meio de recipientes e máquina pneumática a diversas partes do corpo.

A sala comum de comida no Grand-Union tem 259 pés de comp. 56 de largo e admite 1400 hóspedes. Não tem apoio nenhum  para o teto sobre o qual repousam contudo as divisões de andares superiores, mas consta-me que o madeiramento está todo travado com as paredes da sala. O salão de conversa tem 140 p. de comp. e 62 de larg. O hotel pode receber 1800 hóspedes.

Seguimos o mesmo caminho para Albany e depois vamos a Poughkeepsie, do nome índio Apokeeepsing (safe harbor). Dizem que a High-nek-spring surge de um pequeno rochedo formado por depósito de água, mas que creio que aí foi posto de propósito para tornar a fonte mais procurada.

7h 13’ linha de barcos no canal à direita perto de colinas. Esqueci-me de dizer que a State-library que vi por fora, em meu passeio de ontem em Albany é um edifício grande. Custa a reter tudo e agora lembro-me de que o quartel general de Washington durante o cerco de Boston foi no lugar da casa e Longfellow, em Cambridge.

7 ¾. Chegamos a Albany. Ontem quando chegávamos do lago encontramos diversas pessoas que corriam puxando uma bomba para exercício. Vejo aqui um sleep-car, de Wagner, quase que tombado de todo de um aterro. Este Wagner, por ser rival de Pullman, põe dúvidas em admitir o nosso carro em sua linha, mas espero que se vença aqui esse embaraço, que o é mais pelo incômodo de passar a bagagem para outro carro.

9 ¾ Enfim partimos no outro trem (Wagner car). Vanderbilt não quis, parece, responder ao telegrama.

Margeamos o Hudson (10h 7’). Ao longe à direita e por detrás montanhas muito distantes. Vejo desse lado e além do rio uma povoação com casas derramadas por colinas altas.

10 ¼. Passamos por edifícios num porto onde estava um vapor grande. A margem, toda semeada de casas. Ponte deste lado do rio. Segundo edifício que vejo do lado oposto com calhas descendo de janelas. Parecem elevadores. O rio alarga bastante. Vê-se por detrás das colinas da margem oposta uma serra muito elevada e muito longe.

10h 20’. Passamos ponte coberta em algum pequeno rio, ou entrada do Hudson deste lado. A vista do lado oposto do rio é muito bela. O caminho segue um aterrado nas águas do rio. Ambos os lados lindos e muito habitados.

10h 25’. Addison. Na margem que seguíamos. Tem bastantes casas e chaminés das fábricas.

10h 32’. Temos andado 50 m. por hora. Vejo no cimo da colina na margem oposta uma grande casa com bandeira americana flutuando num mastro. Parece-me hotel. A estrada roça quase as colinas baixas deste lado e as águas do rio. Tenho visto barcos pequenos a vela. Os carneirinhos no rio parecem indicar pedras, ou fundo baixo. Mais três elevadores na margem oposta e um grande vapor atracado a um deles.

11h 12’. Outro aterrado no rio e talvez maior que o primeiro. Vejo outro elevador na margem oposta com barcos ao pé. Avistam-se mais do mesmo lado. Outro aterrado – menor – dentro do rio. Povoações sofríveis na margem oposta. Navios de vela e vapor de rebocar madeira. Vapores um pequeno – os outros três rebocadores dos quais um o Niágara, muitos barcos, creio que de lenha. Tenho visto faroletes dentro do rio.

11h Chegamos agora a uma ponte deste lado. Atravessamo-la. Tem casas e arvoredo. Campo pequeno a arar com um cavalo à direita. Volta o rio.

11h 3’. Ilha de rocha lamelar não muito grande. Elevador na outra margem. Casas espalhadas nesta. O rio estreita. Colinas bastante altas na margem oposta. Pequeno aterrado no rio. Esta margem também é de pedra mais ou menos lamelar.

11 ¼. Pequeno túnel. Chegamos a Poughkeepsie. Partimos de Poughkeepsie perto das 2h

Às 11h 35’. Fui a Vassar College a 2 m. O caminho não é feio. As ruas da cidade são arborizadas. O lugar do colégio nada tem de saliente. Grande edifício de 4 andares, com sótão. Gostei em geral mais de Wellesby College. Parece-se com este sobrepujando-o no gabinete de física que é muito bom para o fim; no museu, que ainda não está organizado, dada por Giraud, companheiro de Audubon e no observatório que aquele ainda não tem. Este é melhor que o de Harvard College.

Telescópio de objetiva de 16 pol. feita por Clark. Cronógrafo elétrico bom círculo meridiano com colimadores. Observam o disco com heliostato fotográfico que não existe em Cambridge. A diretora é Maria Mitchell que teve em 1864, creio eu, um prêmio na Dinamarca pela descoberta de um planeta. Tem no observatório um bom busto de Sommerville, de quem ela dá alguns ares. Traz canudos grisalhos e tem cara larga e expressiva, sobretudo os olhos que são reflexivos. Anexo está com o Museu, na mesma casa, a galeria de belas artes de que falarei depois.

Ouvi uma rapariga tocar a marcha de Korsti ao piano sofrívelmente, na capela onde há órgão e é também o lugar dos atos.

Assisti à tradução dos Captios de Plauto que os rapazes tinham representado e de uma passagem da sátira de Juvenal e gostei. Entram com 16 anos e o curso é de 4. Vi lá o professor Houghton, que escreveu sobre o Brasil e ficou de mandar-me a nova edição de sua obra.

Pouco depois de Poughkeepsie, túnel em rocha, pequeno; outro também pequeno.

2h ½. Altas colinas com mato em ambas as margens e antes vi à direita uma montanha cônica coberta de mato. Saímos (2h 34’) de 3º túnel, pouco maior que os outros. Margens com casas e povoações; uma grande na margem oposta.

2h 35’ Chegamos a West Point. 6h ¼. Atravessei o rio em pequeno ferry-boat. Subi a ladeira de carro e fui à porta da livraria onde encontrei quem disse ao Comandante da Escola General Rogers? Examinei os retratos que há na livraria, um dos quais é muito parecido com o Barão de Laguna. Creio que é o general de engenheiros. A livraria tem 10.000 volumes, porém nada de curioso. A capela de colunas e bonita, Tem lápides nas paredes com os nomes e datas da vida dos generais que guerrearam pela Independência, à direita; e à esquerda no México; a do Major-General Arnold tem o lugar deste nome em branco. Nas paredes desse lado estão as bandeiras tomadas aos ingleses e mexicanos. Vi os gabinetes de química e de física – neste há um magneto bobina, o maior conhecido, que atrai o peso de 3.000 libras e um aparelho de Rumkerf cuja centelha mata um homem. Vi também amostra do asbesto, que serve para cobrir casas e vem de pouco distante de West-Point.

O professor Kenrick é conhecido. O professor de certa parte da física – luz, acústica e mecânica – levou-me ao observatório de que não gostei. O telescópio é de pequena objetiva, feita na casa Ertel, de Munich O círculo meridiano tem movimentos perros e a cúpula difícilmente gira e por manivela de vai-e-vem. O próprio professor confessa que esta parte do observatório não prestava. O gabinete para a física que ele ensina possui excelentes instrumentos. Assisti a exames de matemáticas elementares onde vi Church, matemático distinto que ensina todo o curso matemático; outro de engenharia; o professor Weare de desenho e outro colombiano, creio que Dejamon, de família de origem francesa, muito amiga de Bolívar que também estava na mesa dos exames.

Visitei quarto dos cadetes – três em cada quarto – e num com uma meia divisão separando duas camas de uma. Vi a sala dos desenhos onde está um bem feito do General Sherman representando Teseu derrubando com a malha o minotauro e o lugar onde desenham; o lugar da comida e depois de ir ao cemitério para ver o túmulo do General Scots, bonito e simples ereto pelas filhas (e) e o monumento de Kosciusko sobre um teto que descobre o Hudson até longe e foi ereto em 1828 pelos cadetes; vim assistir defronte da casa do comandante que me apresentou à mulher à vista de 280 cadetes que, apesar de não estar aí a classe mais antiga,  que acabou o curso, trabalharam bem marchando perfeitamente bem. Vi no alto de um morro que olha para o rio as ruínas do forte Putman que figurou na guerra da Independência. A fugida de Arnold para a corveta inglesa Future foi milhas abaixo.

Washington indicou o lugar de West-Point, assim chamado por estar em ponte dirigida a oeste para a Escola. Partimos às 6h ½ para N. York.

O rio é belo em ambas as margens bordadas de colinas elevadas e de montanhas.

6h ¾. O rio alarga bastante. Atravessamos por entre casas. Muitos escaleres no rio. Agora atravessamos uma ponte, sempre do mesmo lado. Custa a rabiscar com tamanha velocidade. Pequeno túnel.

7h Torna-se a ver o rio. Outro túnel, pouco maior; corte pequeno e rio que se alarga muito. Ao longe estreita entre uma montanha à direita e a ponta de uma larga colina à esquerda que vamos seguindo margeando o rio à direita. Fecharam-se as duas pontas pela perspectiva, parecendo o rio um grande lago. Grande corte em terreno arenoso. Alargou o rio de novo. Passamo-lo numa ponta em aterrado com uma ponte. Belíssima vista ao longe, rio abaixo. Nas montanhas da margem oposta empoleiram-se [ilegível] . Pequeno túnel. Passamos junto à prisão de Sing-Sing.

7h ¾ Outro pequeno túnel e passamos uma povoação com suas casas. Vêem-se bastantes barcos a vela e há pouco vi um vapor. Pequeníssimo túnel. Rio muito largo. O sol vai-se escondendo (7h 20’) por detrás das montanhas do lado e dá às árvores deste lado um verde belíssimo. Lindas casas de campo sobre as colinas deste lado. Vamos rente com a superfície de água do rio. Vapor grande atracado deste lado e algumas casas. Montanhas de pedra que parecem paliçadas do lado oposto. São as Palisades (7h ½).

Vem subindo 2 vapores que não são pequenos quase emparelhados; mais atrás outro. Mais 2 emparelhados; mais um. Deste lado molhe de madeira e bastantes; [sic] algumas com bonitos e jardins. Grande aterro deste lado sobre o rio, cercado de seus paus fincados e pedras soltas. O centro ainda tem água. Outro lugar deste que se aterra sobre o rio. Pequeníssimo e curto corte em rochedo. Bonita povoaçãozinha do lado direito. Grande corte com pequeníssimo túnel na rocha. Lindo castelinho em colina verde do outro lado de água à direita. Um vapor atracado. A terra do lado direito de rochedo e árvores é o começo do aqueduto de Croton que passa aí o rio sobre altos arcos de tijolo com uma torre do outro lado. Ponte que também deixamos à direita (7h 48’). Já se avista N. York creio eu. Com efeito vamos chegando a N. York. Rochedo à direita, todo cheio de letras brancas de anúncios. Paramos 8h 8’. Segui logo depois de ter largado vapor. Atravessamos ponte de ferro e madeira não muito longa. Túnel e muito longe passagem coberta com pequenos intervalos. Em parte era a passagem coberta com pontes superiores. Chegamos à estação 8h 6’.

16.06.1876 Página