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19.06.1876

 

Antes do almoço fui ver as praias dos banhistas. A terceira beach não é freqüentada. Na 2ª, reparei para os Harpin-rocks que rindo parecem a boca aberta de um monstro. Era este o lugar de predileção do célebre Bispo Berkeley, autor de Alciphron (diálogos sobre a doutrina cristã e como vi nas suas obras que existem na Redwood Library de um trabalho sobre as vantagens da água com pez ou alcatrão. (Tar-water). A volta apresenta uma perspectiva muito bela e passei entrando na cidade por lindas casa de campo.

Casa onde nasceu Channing de aparência mais antiga do que aquela onde Washington encontrou-se em Rochambeau, chegado na frota francesa. Aquela veio do lado do atual. Tour Park onde manhã vi a bonita estátua do Comodore Perry que foi ao Japão. Tem bonitos baixos relevos também de bronze no pedestal. O que representa um desembarque no México é o melhor. Há as datas de seus serviços no Japão – África e México. Na mesma praça, está a round tower que é visívelmente um moinho do tempo dos ingleses e não dos irlandeses ante-columbianos. Esta família Tours era de judeus ricos. O mesmo deu dinheiro para a Sinagoga, feita por um arquiteto português – segundo me disse quem me guiava, um literato de New Porto apresentado por Brancroft filho – e outro, Judah, o terreno para o cemitério dos judeus, que também vi, passando.

Fui depois a Redwood Library onde há a coleção artística de King, e seu retrato feito por ele mesmo aos 20 anos. Há boas cópias em mármores de estátuas antigas. Vi aí um quadro a óleo de Newport, em 1776. Não vi o sobrescrito de uma carta de Londres para N. York, onde se acrescentava para não haver dúvida – perto de Newport – o que indica a mudança que pouco tempo fizera na importância das duas cidades.

Fui ver Mrs. Birckead, filha do velho Hunter, que esteve no Brasil. Só achei lá a filha casada do oficial da marinha, que me disse que a outra estava na igreja e ela já tinha um filho de 6 meses. É uma linda rapariga. O marido também se achava presente. Habita Mr. B. uma casinha com seu jardim na cidade, não longe do mar, que não se vê.

Voltei ao hotel e de lá fui a Goat-Island ver a fábrica de torpedos. Tem um diretor, 5 oficiais ajudantes e 20 aprendendo. Está muito bem montada. Aí aprontavam um caixão flutuante com peça de atirar por baixo d’água, mas ninguém confiava como eu não confio no bom resultado a respeito do projétil de movimento retilíneo pela incompressibilidade da água. Vi ainda o barco torpedo que tem a velocidade de 20 m. por hora; caldeira de tubo interno em espiral que em um momento produz vapor, e consumindo 400 ££ de carvão por hora. Assisti ao manejo do torpedo spar, e vi os que servem de defesa de portos. Muito me agradaram os gabinetes elétrico dirigido pelo inteligente Farmer que melhorou a máquina eletro-magnética, tendo visto também uma eletro-motora e a poderosa faísca produzida pela eletro-magnética e o de química, dirigido pelo inteligente Eads, discípulo de Harvard College, onde se preparam a nitro-glicerina e a dinamite misturada àquela com uma espécie de gesso vindo de New Hampshire, no estado de pureza que as torna inocentes só explodindo com fulminato ou faísca elétrica. Vi também um aparelho – o maior que conheço – para liqüidificar o gás ácido carbórico.

O diretor falou-me do emprego deste gás como motor, mas os ensaios só tem dado velocidade até 10 m. por hora. Pretendem regular da ilha a hora na cidade por meio da eletricidade. Muito me agradou esta visita.

Às 2 ½ fui para casa do Bancroft para o launch e acabado este demos um lindo passeio pelos jardins, casa do Agassiz e costa com lindas pequenas enseadas nos rochedos e por fim soirée em casa do Mayor Bedlow.

Falarei depois de tudo isto com minuciosidade.

A casa de Brancroft olha para o oceano. Ele gosta desta vista, porém não de viajar nele. Lembrei-lhe os versos de Lucrecio. Lindo jardim.

Mme. Bancroft é muito amável, porém um pouco alemã de opiniões, como o marido, embora reconheça que prolongaram demais a guerra e lhe repugne a anexação.

Vi as filhas de Ticknor e a do Comodore Perry, do Japão, ambas muito bem conservadas. O publicista Lawrence, Russel, os generais Warren e Bodges que passa por bom matemático; o pintor Lafarge e outros, todos mais ou menos interessantes. Conversei também bastante com Mrs. Bedlow mulher do Mayor. No passeio, atravessei as chácaras de Rutherford, das fotografias da lua, viúva Breuver, da fonte do Common de Boston; passei pela casa de Appleton, cunhado de Longfellow, em cuja porta deixei um bilhete a lápis e entrei na casa de Alex. Agassiz situada numa colina de rochedo no bairro, como um pontozinho entre rochedos. Vi alguns peixinhos quase microscópicos que cria e desenhos de peixes.

Esqueci-me dizer que em Yale College vi um polvo com braços de 27 pés de comprimento.

 No passeio os pontos de vistas do lado do pôrto são lindíssimos, porém os da volta pela costa ainda são mais pitorescos, talvez por causa das pequenas enseadas de rochedos, em alguns dos quais Agassiz mostrou-me o polimento das galerias.

Parei na casa de Russell, com jardim lindíssimo, onde vi belas árvores agradando-me sobretudo os purple-beechs e a árvore do Japão, Gando, com folhas pequenas, de forma de leque japonês ou chinês. Russel não parece ter os 80 anos. As filhas são muito amáveis e a mais moça parece muito querida de Bancroft. Deram-me uma espécie de merenda. Bancroft e Agassiz também acompanharam-me no mesmo carro. A Imperatriz foi com outros dois homens e a Josefina, deixando de ir, creio que com Mrs. Brunn, indicada por Bancroft como falando muito bem francês. Também atravessamos o lindo jardim dessa senhora que talvez fale demais. Em casa do Mayor, soube que ela era amiga de Begman (rainha de Mount Vernon, como se intitula) que danada.

A casa de Mayor do lado oposto por onde passeamos é muito bonita e a soirée foi muito agradável. Mrs. Bedlow é muito amável e a filha Alice cheia de graça e de espírito. Também conversei bastante com o general Bodges, que muito me agradou e uma senhora que esteve 12 anos em Florença e tem muita graça conversando. Também encontrei um homem que muito me falou do Fayal e Madeira, perguntando-me pela família Dabney que é a da mãe do juiz de direito de Itu, filho do Brotero, o que lhe disse. Infelizmente, por ser domingo só tocou a música de Fort Adams que também cantou. A senhora dos 12 anos de Florença é amiga de Litz que tocou piano para ela cantar e discípula de um pianista, cujo nome não me lembro agora, cunhado de Litz.

Retirei-me antes das 10 ½. Depois de chegar ao hotel veio como prometera o Sr. Meyer, de Viena, com quem falara também bastante em italiano, na casa de Bedlow e trouxe-me os Fígaro de maio e junho.

Ontem e hoje, bem cedo, pela manhã, recebi telegrama do general Meyer, do Signal-Office, dando-me os sinais do tempo provável. Ontem, antes de ir à casa do Bedlow, estiveram no hotel a filha de Mrs. Birckead, nascida em Botafogo, com o tio Thomas e um filho deste. A mãe antes se lembrou de uma visita que fez a São Cristóvão quando eu estava na lição, que interrompi para falar-lhe, assim como a outros americanos. Ela esteve de manhã com a Imperatriz; de noite não pôde voltar. O vapor partiu às 7 em ponto.

Arrebentaram muitos torpedos ao passarem por Goat-Island, mas o fog espesso só permitiu-me ouvir o som de quase todos e somente 2 foram bem observados quando fizeram explosão, mas eu supor acabadas as explosões só vi o círculo de água revolta deixado pelas explosões.

Esqueci-me dizer que em New London só três vagões e a locomotiva passaram na barca de trilhos, creio que por não permitirem mais as dimensões da barca.

No passeio de ontem depois do almoço e missa em uma igreja não muito grande mas cujo interior no gosto da de Boston agradou-me, vi, passando a casa com jardim da célebre atriz Cushman, que só deixou parentes longínquos.

Em casa de Bancroft também conheci o literato Calvert.

O diretor do estabelecimento de torpedos é o Captain Breese.

O nome do professor de New Haven que também muito me agradou é Brush

Em casa de Agassiz vi as 2 filhas mais velhas – o Rodolfo não apareceu – parecem sérias, o que em crianças não é ordinariamente bom sinal – e a sogra gorda e de cabelos quase brancos.

9h 20’. Almoçamos a bordo do vapor, parado mais de hora e segue agora o trem.

1 ¾. Caminho o mesmo, porém passada a estação de Fair Haven vi bem sua grande montanha de pedra à direita, que já havia descoberto ao longe chamada Hiss-rock.

Creio que me disse que em Bridgesport havia grande serraria, enganei-me, são de máquinas de costura. Ontem apareceu-me o cego educado como Laura Bridgeman com os pais, que tem mais 5 filhos fortes e sem defeito. Enfiou um agulha. Mostrou-me que conhecia o fim de um relógio pegando neste e apresentando-me o seu. Comprei objetos de missangue muito bem feitos por ele e escreveu seu nome e idade 46 anos. Levo o papel. Disse-me a mãe que ficou cego, surdo e mudo de escarlatina aos 4 anos, e aos 8 foi para o Instituto Perkins, dirigido pelo Dr. Howe onde ficou muitos anos. Corresponde-se por escrito com Laura.

Saímos de New Haven às 2h 27’. O caminho é meu conhecido até New Rochelle.

Versos do Bispo de Berkeley:

Westard the course of empire takes its way,

The four first acts already past.

A fifth shall end the dram with the day

Time’s noblest off spring is the last.

4h 27’. O caminho atravessa água sobre trilhos descansando em pontaletas baixas de madeira. À direita descobre-se o mar e ao longe Long-Island.

4 ¾. Passamos pela estação de West Farms.

5h 8. Chegamos a New-Rochelle.

Entraram os vagões e a locomotiva na barca onde jantamos. Vimos pelo East-River vendo as ilhas, sobretudo a de Ward onde há edifício públicos dos quais a Poor-House – também vi à esquerda a prisão – grande casa e os presos em grande número marchando – e os rapids, onde se vão arrebentar as grandes minas no dia 4 de julho, no lugar Hells-Gate – e agora (6 ¾) dobramos a ponta de N. York, onde há Castle-Garden – entramos no Hudson-River e 7h 10’ Chegamos a Jersey.

7h 5’. Saímos da barca e seguimos para pararmos. East-River é muito bonito e povoado. Depois de Jersey atravessamos uma verde campina com bastante água à esquerda. É o rio Hockindock e agora creio que seguiremos sem pronta interrupção. São 7h 25’. Passamos o rio em ponte de ferro.

7h ½ Deixamos a estação de Newark, povoação considerável. Terrenos bem cultivados de ambos os lados em pequenas extensões. Bonitas casas de madeira, de ambos os lados.

7h 40’. Atravessa a vila considerável, de nome Elisabeth Linda casa de campo à direita afastada do caminho. Atravessou-se um lindo pequeno bosque. Já vi duas casas de madeira abertas com letreiro Gasgling-oil.

8h 5’. N. Brunswick. Vamos atravessando a povoação que não é pequena depois de passar em ponte de ferro o rio. Já custa a escrever. Amanhã completarei. O rio chama-se Raritan. Não é muito largo.

 

19.06.1876 Página