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11.07.1876

    Antes do almoço cortei o cabelo e fui ao Instituto dos cegos. Casa grande e onde estão 100 e tantos podendo admitir muito mais Todos se acham fora. Curso completo para os superiores. Parece pouco cuidarem de artes que exijam mais perícia manual que inteligência. Tem 13 pianos e aprendem música e a afiná-los. Vi um processo de escrita por pontos mais rápidos e demandando menos espaço. Trouxe um livro explicativo. Também há um cilindro, que por seu movimento circular e carreiras verticais de bilhetes indica facilmente ao cedo seu número para saída quando o merece por sua aplicação e bom procedimento em geral. É particular. O Estado paga por cada cego por ano 300 dol. para ensino e 50 para vestuário. A casa custou 100 mil dol. Fábrica de Tiffany onde se fazem todas as obras de prata, ouro, cobre, bronze, esmalte – há oficina galvanoplástica para os três metais e platina, e de desenho. É muito interessante.

    Depois do almoço no Delmônico – 5th Avenue nº 14 com o Bom Retiro e o Fontes – tardou o almoço; porém não desconceituou a casa afamada – fui ao New York Times. Vi lá um modelo de máquina de secar café por meio de vapor de água na razão de 10.000 ££ por dia em 40 tabuleiros de 63 [sic]cada um, consumindo a caldeira uma corde de madeira como combustível. Ao mesmo tempo não se evapora toda a lavagem do café que serve para produzir o vapor, e trabalhando 2 caldeiras; ora uma ora outra de 40 litros de xarope de lavagem extraem-se 3 de aguardente. O inventor Tarière deu-me também aço feito diretamente do magnetito de Long-Branch Vi também fotografias feitas com negativos de gelatina em que a pena traça o desenho. Assim se fazem os desenhos do Novo-Mundo. O Rodrigues estava presente. A imprensa do Times está bem montada porém tira 6.000 folhas por dia.

    Depois fui à Tribuna. Casa magnífica, de cujo cimo se goza excelente vista. Bayard Taylor (o poeta) acompanhou-me. Muito bem montada essa prensa. Tira 25.000 por dia.

    Diário Alemão. Casa magnífica toda de mármore. Imprensa muito bem montada. Tira 55.000 por dia. O dono alemão que está aqui há 27 anos, embora sofrendo um pouco de paralisia nas pernas acompanhou-me sempre. Goza também de bela vista e bom fresco. É fácil ir a todos esses andares por causa dos elevadores.

    Continental Bank Note e American Bank Note. Ao primeiro fui por engano supondo ir ao outro onde se fazem bilhetes para o Brasil. Trabalham bem em ambos sobretudo no segundo, cujo diretor pareceu-me muito inteligente.

    Estive no Consulado perto de Castle-Garden e finalmente vi as ruínas deste que ardeu no domingo de tarde. Os colonos lucraram com o fogo. Terão breve boa casa.

    Às 5 ¼ fui ver uma fábrica de querosene onde o processo de despejá-lo nas caixas é curioso; mas o mesmo dos barris em City-Oil. Antes de lá chegar num vaporzinho – East-river – quis ver se abordava a um vapor onde uma sociedade de Sras. estabeleceram um hospital para 200 crianças. Só as vi de perto. A água estava muito agitada. Tinha havido boa trovoada. Ontem o calor chegou a 100 e 101 e houve mais de 40 casos de insolação, dos quais alguns fatais. O calor tem sido hoje também respeitável. Da fábrica fui ver as escavações em Hell’s gate debaixo de East-River, para fazer saltar o fundo por meio da explosão, e poderem os navios da Europa passar por dentro de Long-Island o que abreviará o caminho de 8 horas. Estive a 40 pés debaixo d’água. Tem 10 entradas e com todas as galerias 40 tendo de extensão todas unidas mais de 7 milhas e há uma nota impressa; que não encontrei: agora já vi a obra depois de terem gasto 1000 contos. Esperam auxílio do Congresso.

    Segui até perto de High-bridge pelo rio de Harlen. Além da ponta deste nome há outras duas onde passam os trens e que também tem a parte central girante para dar passagem aos barcos. Perto de High-Bridge, donde vem o aqueduto de Croton há casas de escaleres de regatas. Como o vaporzinho levou bandeira brasileira vitoriaram-me.

    A bordo conversei com Bayard Taylor que é um viajante universal e fala italiano; espanhol e o árabe de suas viagens pelo Oriente. Esteve um ano Ministro em S. Petersburgo. Tem-se mostrado muito meu afeiçoado.

    Há pouco houve aqui no meu salão um concerto organizado pelo violoncelista Werner. A Thrusby, que eu ouvira em S. Francisco cantou muito bem a balata C’est une volta un príncipe – A Henna (contralto) cantou muito bem. Franz Remmert’s tem excelente voz de barítono. Mills é excelente pianista. De Werner já falei. Gostei bastante. Vou descansar para a partida de amanhã. Durante o concerto houve tremenda trovoada e sempre quente a não ter as janelas abertas ao vento. Não conheço tempo como o do verão aqui. Estava todo brotoejado [sic]; porém em Filadélfia tive momentos de ficar desesperado do prurido.

 

11.07.1876 Original