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TRAVESSIAS Para Travessias, o cenógrafo Pedro Girão, um dos talentos que faz o carnaval da Imperatriz Leopoldinense, criou um navio cenográfico onde o público vai experimentar duas viagens. A primeira é a travessia do Atlântico feita por dom João, então Príncipe Regente de Portugal; sua mãe, a rainha dona Maria, a Louca; sua mulher, Carlota Joaquina; seus filhos e a nata da nobreza e do clero portugueses. A outra é a realizada por um navio negreiro. A diretora do museu, Maria de Lourdes Parreiras Horta, é a responsável pela curadoria das duas exposições. Ela resolveu mesclar as duas viagens para lembrar que, no momento em que dom João atravessa o Atlântico para fugir de Napoleão e dar sobrevida à sua coroa, o Rio de Janeiro já tinha se transformado no maior porto escravagista das Américas. Travessias foi baseada em dois documentos raros que fazem parte do acervo do Museu: um relato biográfico até hoje inédito do Visconde do Rio Seco, nobre português que organizou a viagem de dom João VI e outro do reverendo Pascoe Granfell Hill, chamado Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro, que dispõe sobre a missão da marinha britânica, que ele acompanhou em meados do século XIX, para a captura de um navio que transportava escravos para o Brasil. O navio cenográfico ficará instalado no Pavilhão das Viaturas, edifício localizado nos jardins do Museu, e foi dividido ao meio: de um lado, o público verá peças que lembram a viagem dos portugueses – retratos da nobreza; baús, objetos de uso cotidiano e documentos raros como A luz da liberal arte da cavalaria, livro do final do século XVIII dedicado ao Príncipe Regente, com gravuras de Gaspar Fróes, que dá ensinamentos da cavalaria artística, e os códices secretos de Carlota Joaquina, compilação em quatro volumes de cartas da princesa para parentes e amigos, em que podem ser lidas suas tramas contra dom João e as críticas ferinas que dirigia a Napoleão; do outro lado, peças que lembram a travessia dos escravos, as condições precárias como eram tratados e a herança cultural que trouxeram para o Brasil: roupas e ferros de orixás, batas e instrumentos de castigo. Outro grande destaque são os retratos de negros feitos no século XVI por fotógrafos como Marc Ferrez. Eles vão receber molduras sofisticadas, semelhantes às dos retratos da nobreza portuguesa. Foi uma forma de lembrarmos que muitos destes escravos eram reis e príncipes na África e também a enorme riqueza cultural que trazem para o Brasil, explica Maria de Lourdes. |
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